quinta-feira, 4 de março de 2010

Cigarrilha de aroma

" Ya me canso de llorar y no amanece
Ya no sé si maldecirte o por ti
rezar "

Llorona, Chavela Vargas.

E assim desceu ela às escadas que vinham do segundo andar , zangada com o passo apressado com uma nota presa por pulso cerrado, foi à papelaria, esperou que adivinhassem o que ela precisava naquela manhã de olhos pintados à anos 60, pediu tremula uma cigarrilha de aroma, agora lhe apetecia fumar.
Voltou para casa esperando que o marido não descobrisse que não fora trabalhar , fumo , bebeu café, fumou meia cigarrilha e ouviu Chavela Vargas.
Não fez a cama, usou a tigela do arroz -doce como cinzeiro , já que naquela casa nunca ninguém havia fumado.
Cansada já estava ela de acreditar que as boas meninas não fumam , não bebem tequila e não escutam Chavela Vargas... porque seu mundo era de Chavela, Almodóvar, Frida Kahlo e de vontade lascívia , pois ela sabia que estava sozinha, casada com um bom marido sem filhos em um segundo andar de um bairro de classe média com vista para estaleiro da capital.
Nesta manhã somente a sua gata compreendeu-lhe e não afastou-se do cheiro amargo e fumado da cigarrilha que a sua dona havia comprado na papelaria com a nota amassada pelo pulso cerrado.

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